A LEITURA E A IGREJA

Muitos nos perguntam: “Por que vocês, cristãos reformados, insistem tanto na leitura?” A resposta começa na própria natureza da nossa fé. O Senhor, em Sua graça, decidiu revelar-Se ao Seu povo. E como diz a Confissão de Fé Batista de 1689, logo em seu primeiro parágrafo:

“Aprouve ao Senhor, em diversas ocasiões, e de muitas maneiras, revelar-Se, e declarar a Sua vontade para a Sua igreja; e, posteriormente, para melhor preservação e propagação da verdade, e para o mais seguro estabelecimento e consolo da igreja contra a corrupção da carne, e a malícia de Satanás e do mundo, concedeu a mesma completamente por escrito; o que faz das Sagradas Escrituras indispensáveis.”

É por isso que valorizamos tanto a leitura. Queremos ouvir a voz de Cristo. Queremos conhecer a Sua vontade. Queremos ser transformados por Sua Palavra. E isso só é possível quando o povo de Deus se aproxima das Escrituras com o coração atento e os olhos abertos.

Mas permitam-me aprofundar ainda mais esse tema com vocês, com cuidado pastoral e zelo por aquilo que é eterno:

A leitura e a vida cristã

Desde os tempos da Reforma, os cristãos reformados entenderam que saber ler e escrever não era apenas uma habilidade útil, mas uma necessidade espiritual. Lutero e Calvino insistiram que cada crente deveria ter acesso direto às Escrituras. Isso exigia que o povo fosse alfabetizado, não apenas para se informar, mas para ouvir o próprio Deus falar por meio da Bíblia. Ensinar o povo a ler era — e ainda é — uma forma de discipulado.

Alfabetizar, nesse contexto, sempre foi mais do que educar: é preparar corações para encontrarem a verdade nas páginas sagradas. É dar a cada irmão e irmã a oportunidade de crescer no conhecimento do Senhor, desenvolver discernimento espiritual e viver para a glória de Deus.

A origem da Escola Bíblica Dominical

Foi com esse mesmo espírito que nasceu, no século XVIII, a Escola Bíblica Dominical. Na Inglaterra, cristãos começaram a reunir crianças pobres aos domingos para ensiná-las a ler — e usavam a Bíblia como livro de instrução. Era evangelismo, discipulado e amor cristão entrelaçados. Com o tempo, essa prática cresceu e tornou-se um espaço precioso de ensino bíblico sistemático, alcançando crianças, jovens e adultos.

O ensino na vida da igreja

Na tradição reformada, o ensino é central para a vida cristã. A fé vem pelo ouvir da Palavra. E ensinar — com fidelidade, clareza e reverência — é uma das formas mais puras de adoração. Ensinamos não apenas para informar, mas para formar discípulos de Cristo, gerar maturidade espiritual e conduzir vidas para a glória de Deus.

Por isso, ensinamos desde cedo. Crianças, adolescentes e jovens são chamados a aprender, ler e cantar a Palavra de Deus com entendimento. Não buscamos formar apenas bons alunos, mas adoradores fiéis, que conheçam a voz do Bom Pastor e vivam conforme a Sua vontade. A instrução bíblica desde a infância é um presente que a igreja oferece, confiando que Deus fará frutificar essa semente com o tempo.

Ensino para todos — sem exceção

Essa visão também nos impulsiona a incluir, com zelo e amor, aqueles que enfrentam desafios especiais, como os que estão no espectro autista. Se o evangelho deve ser anunciado a toda criatura, então devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para que toda pessoa possa ouvir e compreender a Palavra. Isso exige que nossos professores estejam preparados — teológica e pedagogicamente — para ensinar com sensibilidade, empatia e paciência.

Capacitar-se para ensinar bem, com acessibilidade, é um ato de amor cristão e zelo pastoral. É cuidar das ovelhas que o Senhor confiou à nossa igreja. Não podemos ser negligentes. Devemos ensinar com compaixão, e com fidelidade, confiando que é o Espírito Santo quem opera no coração.

Qual o fim de tudo isso?

O objetivo final do ensino não é apenas que os alunos compreendam o evangelho — embora desejemos isso profundamente. O fim último de toda instrução é que Deus seja glorificado. E Ele é glorificado quando Sua Palavra é ensinada com fidelidade a todos, inclusive àqueles que o mundo considera pequenos ou frágeis.


Rev. Paulo Júnior Salgado de Moraes

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