A ETERNA MISERICÓRDIA PACTUAL DE DEUS – SALMO 136

Muitas pessoas possuem uma imagem distorcida de Deus. Depois da queda, passamos a imaginar um Deus distante, carrancudo, resistente em se aproximar de pecadores. Pensamos que Ele nos tolera com dificuldade, que Seu amor é frágil e Sua misericórdia limitada. Mas o Salmo 136 destrói completamente essa caricatura. Ele nos apresenta um Deus cuja misericórdia dura para sempre. Não por alguns dias. Não enquanto estivermos fortes. Não enquanto acertarmos. Mas para sempre.

Essa expressão repetida vinte e seis vezes no Salmo — “porque a sua misericórdia dura para sempre” — não é apenas poesia hebraica. É uma declaração teológica profunda sobre o caráter de Deus. A palavra usada envolve bondade, fidelidade, compromisso, amor pactual. É a ideia de um Deus que decidiu amar Seu povo com um amor que não quebra diante da falha humana.

O Salmo foi organizado em um contexto de dor nacional. Israel havia experimentado exílio, humilhação e disciplina. O povo estava cercado pelas marcas do fracasso e do pecado. Porém, o livro V dos Salmos começa justamente reafirmando que “a misericórdia do Senhor dura para sempre” (Salmo 107.1). Isso significa que o pecado de Israel não anulou a fidelidade de Deus.

E aqui existe uma verdade profundamente prática para nós: Deus continua sendo fiel mesmo quando nossa vida parece um cenário de ruínas.

Talvez você esteja vivendo exatamente assim agora. Cansado. Frustrado. Com sentimentos desorganizados. Lidando com vergonha, medo, ansiedade ou culpa. Talvez você olhe para sua própria história e pense que falhou demais para que Deus ainda o queira. Mas Jeremias 32 mostra exatamente o contrário. Quando Jerusalém estava prestes a ser destruída pela Babilônia, Deus fez uma das promessas mais belas de toda a Escritura:

“Farei com eles uma aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem” (Jeremias 32.40).

Perceba a profundidade disso. Deus não está dizendo apenas que suportará Seu povo. Ele diz: “Terei alegria em lhes fazer o bem” (Jeremias 32.41). Isso muda completamente a maneira como enxergamos o Senhor. Deus não é apenas alguém que aceita nossa presença porque precisa cumprir uma obrigação pactual. Ele Se alegra em cuidar do Seu povo.

Muitos vivem tentando merecer o amor de Deus. Pensam: “Preciso melhorar primeiro para depois me aproximar.” Mas o evangelho inverte essa lógica. Deus não diz: “melhore e depois venha”. Ele diz: “venha, e Eu o transformarei.”

Isso é extremamente diferente do paganismo. No paganismo, a pessoa oferece algo esperando receber algo em troca. No cristianismo, nós adoramos porque Cristo já realizou tudo na cruz. Não nos aproximamos tentando conquistar favor; nos aproximamos agradecendo pela graça já concedida.

O Salmo 136 então nos conduz por cinco grandes cenas da misericórdia eterna de Deus.

Primeiro, ele nos lembra quem Deus é. Yahweh, El, Adonai — o Deus da aliança, o Deus acima de todos os deuses, o Senhor soberano sobre reis e nações. Em um mundo marcado por guerras, instabilidade política, crises econômicas e medo coletivo, o Salmo nos lembra que nada foge ao governo de Deus. A guerra não O surpreende. O caos não O desorganiza. Os governantes não ameaçam Seu trono.

Depois, o Salmo celebra a criação. Deus criou um mundo belo, cheio de ordem e significado. Mesmo depois da queda, ainda existem vestígios da bondade divina na criação. O crente não deve desprezar as boas dádivas de Deus. A beleza da natureza, a mesa compartilhada, a cultura, o trabalho, a família e até os pequenos momentos da vida comum podem ser desfrutados para a glória de Deus (Salmo 24.1; Salmo 104.14-15; 1 Coríntios 10.31).

Isso confronta diretamente uma espiritualidade fria e desconectada da realidade. Deus não nos chamou para fugir do mundo, mas para viver nele como testemunhas de Sua graça. A criação não é um acidente; é um testemunho da misericórdia do Criador.

Então o Salmo relembra o Êxodo. Deus libertou Israel do Egito, venceu Faraó, abriu o mar vermelho e sustentou Seu povo no deserto. Tudo isso aponta para Cristo. O Egito representa a escravidão do pecado. Faraó representa os poderes opressores deste mundo. O mar vermelho representa o impossível humano sendo vencido pela intervenção divina.

E aqui encontramos uma verdade preciosa: nada pode impedir Deus de salvar Seu povo.

Colossenses 2.13-15 declara que Cristo cancelou nossa dívida, triunfou sobre os principados e venceu nossos inimigos espirituais na cruz. Isso significa que o cristão não luta por vitória; luta a partir da vitória conquistada por Cristo.

Mas o Salmo vai além da conversão. Ele também fala sobre preservação.

Israel não apenas saiu do Egito; precisou atravessar desertos, enfrentar gigantes e batalhas impossíveis. E isso descreve a vida cristã. Deus não apenas salva; Ele preserva Seu povo.

Talvez uma das partes mais profundas do sermão esteja exatamente aqui: você não está de pé hoje porque foi mais inteligente, mais forte ou mais disciplinado. Você permanece na fé porque existe um Rei assentado no trono preservando você. Se Deus retirasse Sua mão sustentadora por um instante, cairíamos como Adão caiu.

Isso destrói o orgulho espiritual.

Nenhum cristão pode olhar de cima para baixo para outro pecador. Se permanecemos firmes, é por pura graça preservadora. A salvação começa pela graça, continua pela graça e termina pela graça.

Por fim, o Salmo mostra Deus como um pastor compassivo. Ele se lembra do Seu povo no abatimento. Quando os amigos vão embora, quando a vergonha pesa, quando a alma parece despedaçada, Deus não recua. Ele não sente vergonha dos Seus filhos quebrados.

Essa talvez seja uma das imagens mais belas do sermão: Deus olhando para uma vida quebrada e recolhendo cada pedaço com misericórdia.

Quando Jerusalém estava destruída após o exílio, parecia que tudo havia acabado. Mas Deus ainda estava ali. O mesmo Deus que tirou Israel do Egito também trouxe o povo de volta do cativeiro. Isso significa que Deus não abandona Seu povo nem depois das quedas.

Talvez você esteja lendo isso exatamente em um momento de luta. Talvez a depressão, o medo, a vergonha ou a solidão estejam apertando seu coração. Então lembre-se: o amor pactual de Deus não terminou. Ele continua olhando para você. Continua sustentando você. Continua trabalhando até mesmo nos dias em que você não consegue enxergar esperança.

E por isso o Salmo termina apontando para o único conforto verdadeiro da vida e da morte: pertencemos a Cristo. Corpo e alma. Na vida e na morte. Ele pagou nossos pecados. Ele nos libertou da tirania do Diabo. Ele governa cada detalhe da nossa história. E nem um fio de cabelo cai da nossa cabeça sem a vontade do Pai celestial.

Por fim, resta apenas lembrar das palavras de Davi:

“Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre” (Salmo 23.6).

Sermão baseado na pregação: https://www.youtube.com/watch?v=LONvciz-tXU

Pregado em 11/05/2026
Pr. Paulo Júnior Salgado de Moraes

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